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Por se tratar de uma coluna, esse texto é de cunho pessoal. Se trata da opinião de um dos nossos colunistas e você tem o direito de concordar ou não, mas o respeito, esperamos que seja mútuo entre nós.

Precisamos de falar sobre Johnny Depp. O ator de 53 anos, branco, nascido no estado de Kentucky, nos Estados Unidos, foi famoso por interpretar grandes personagens como Jack Sparrow, Willy Wonka, Sweeney Todd, entre outros. Ganhou destaque técnico em suas participações, levando para casa um Globo de Ouro e três indicações ao OSCAR.

Em meados de Agosto, o site TMZ vazou um vídeo do ator sendo agressivo com Amber Heard, sua ex-esposa. No vídeo, Depp é agressivo, fala palavrões e bate em armários, e sem motivo aparente para sua crise de fúria, ele chega a quebrar uma garrafa de vinho no chão. O site também relata outros episódios, como ameaças, e o ápice foi quando o ator bateu em Amber com um celular. O divórcio de ambos repercutiu na mídia e acabou em um acordo em que o ator teve que pagar cerca 8 milhões de dólares para Heard.

Ontem, portais de notícia americanos como o Deadline, The Hollywood Reporter e Entertainment Weekly anunciaram que Depp estará na nova franquia produzida e roteirizada por J.K. Rowling e que se apresenta como uma prequela da saga Harry Potter: Animais Fantásticos e Onde Habitam. Mas o que isso muda no Universo de Harry Potter? Vamos lá.

O argumento mais utilizado por fãs que defendem a participação de Depp é: não devemos misturar vida profissional e pessoal. Em algumas situações, isso é correto: em ocasiões profissionais, não podemos deixar nossos problemas pessoais afetar nosso rendimento e produção. Em outros casos, não.

Suponha que você tenha em sua empresa um homem que é agressivo, que agride, estupra ou violenta mulheres, mas é um bom funcionário, continuaria com ele lá? O mesmo se aplica a Depp. Ele pode até ser um bom ator (embora isso seja contestável), mas como ser humano, é agressivo. Em tempos de internet, discussões sociais e feminismo, devemos deixar que essas pessoas saiam impunes e sejam simplesmente escaladas para uma das maiores franquias cinematográficas de maior visibilidade sem contestação? Não mesmo.

A sociedade de uma forma geral (pessoas, empresas, instituições) devem repudiar em todos os sentidos qualquer tipo de agressão/agressor contra qualquer grupo social que já é estruturalmente oprimido (nesse caso, mulheres). E repudiar um famoso agressivo significa sim pedir pela perda de influencia, pressionar canais de mídia, expor acontecimentos passados, e não querer que ele participe de uma franquia bilionária que o daria mais reconhecimento e visibilidade.

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Aos que defendem o talento do ator e alegam que sua participação na saga é estritamente profissional: quantos casos de abuso e agressão merecem invisibilizados por talento? Depp merece ser reconhecido como um ótimo ator ou como o homem que agrediu sua esposa? Infelizmente, um acaba invisibilizando o outro. E se Depp agride sua esposa e continua com uma carreira intacta, o que garante que outros homens não o façam? É tudo sobre visibilidade e repercurssão.

Sei que muitos gostam dele pela sua atuação e personagens. Mas quando estamos discutindo questões sociais, não devemos individualizar esses problemas pelos nossos gostos, mas sim pelo o que essas ações representam e causam. No fim das contas, quem perde com isso são as mulheres. Depp só perdeu 8 milhões de reais. Temos um agressor andando pelas ruas, sendo ovacionado por multidões e agora, escalado para a saga Harry Potter. Tem algo errado nisso aí, não?

A saga Harry Potter sempre se posicionou contra a desigualdade e  a favor da luta por direitos e pelo o que é certo. O elenco da saga sempre foi honrado e exemplar. Então a única pergunta que nos resta é:

Em qual mundo queremos viver: em um mundo em que criminosos são livres e o que importa é o seu talento, ou em um mundo em que o maior talento é lutar pelo que é certo? Precisamos pensar sobre isso.