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Já é um assunto quase antigo: desde que foi anunciado o elenco de Harry Potter and the Cursed Child e a atriz Noma Dumezweni foi elencada para interpretar Hermione Granger, centenas de fãs, críticos e admiradores da saga se levantaram para questionar sobre a cor da pele de Hermione, e agora, que estão exibindo prévias da peça, nos sentimos no dever de falar um pouco sobre isso.

Vamos iniciar com uma frase do discurso de Viola Davis, quando ganhou o Emmy Awards por sua interpretação na série How to Get Away with Murder, sendo a primeira mulher negra a receber o prêmio:

“A única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra pessoa é a oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem.”

E isso já é o suficiente para você compreender o significado do termo representatividade. Mas vamos lá.

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Noma Dumezweni é uma atriz de primeira: famosa por fazer personagens importantes em conceituadas peças (Sonhos de uma noite de Verão, A Raisin in the Sun) e também em séries de TV (Doctor Who, Macbeth), a atriz já ganhou o Olivier Awards, renomado prêmio da Sociedade de Teatro de Londres e quando foi cotada para interpretar Granger em The Cursed Child, foi descrita pela crítica de teatro Kate Maltby como “uma atriz que se envolve e cativa constantemente”. Ninguém aqui vai questionar o talento de Noma simplesmente porque para muitos, este não é o problema. Para estes, o problema está além de talento: é uma questão de raça.

 Talvez a crítica se dirija não ao fato de Noma ser negra. Mas ao fato dela interpretar uma personagem que até então todos imaginavam ser branca. Mas J.K. Rowling nunca disse a cor da pele de Hermione, então por que a víamos como branca?

 De duas, uma: ou porque estamos acostumados com a imagem que a Warner Bros nos passou de Hermione, que se resume na brilhante Emma Watson, ou porque simplesmente quando não é descrito a aparência de certo personagem, presumimos que ele seja branco, e isso é um problema.

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 Para os defensores da primeira hipótese, que defendem que J.K. Rowling estava dentro do processo de produção dos filmes de Harry Potter, precisamos levar em conta que o fato de J.K Rowling aceitar sugestões de David Heyman e Steve Kloves (produtor e roteirista dos filmes, respectivamente), não quer dizer que o que eles sugeriram era o que J.K. havia imaginado. Existem uma série de fatores em uma adaptação cinematográfica que acabam passando por cima das ideias do autor (motivos de divulgação, roteiro, custo, etc.), e além disso, J.K. Rowling sempre foi adepta à filosofia de deixar o leitor livre: Hermione Granger é uma bruxa inteligente, de dentes grandes e cabelos frisados. O resto, é por conta de sua imaginação e interpretação. E no caso da peça, foi por conta da J.K. Aquela é a Hermione de Rowling, e a gente deve aceitar isso, mesmo que mantenhamos em nossas mentes a Hermione da Warner.

Já para os defensores da segunda, o problema está no racismo implícito na mente de algumas pessoas. Hermione é uma garota europeia e está submetida em um meio onde a maioria das pessoas são brancas. Por mera intuição e/ou preconceito, as pessoas veem-na como branca. Tudo bem que, como já disse, cada um tem o direito de imaginar a Hermione como bem quiser, mas não aceitar a interpretação de algumas pessoas e da autora é, no mínimo, preocupante. Principalmente quando estamos falando de uma representatividade em um mundo de personagens que são diversos, e de uma personagem que suas características psicológicas e intelectuais sobressaem de forma substancial seus aspectos físicos.

Os argumentos de que nos livros Hermione já “empalideceu” é facilmente descartado com o fato de que pessoas de pele escura também podem ficar pálidas, e o termo “white face” em inglês é uma tradução da reação de quando alguém é surpreso ou assustado e o sangue sai de sua face. E o argumento de que ela ficou “very brown” (muito bronzeada, na tradução do Brasil) depois que voltou das férias em Paris (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban) apenas reforça o fato de que sim, a Hermione de J.K. Rowling sempre foi negra. E que sim, você que não viu isso, pelo cânone criado pela Warner, ou por simplesmente não aceitar.

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Pois bem, vamos supor que mesmo depois de todas as evidências e da autora confirmar com todas as letras que Hermione é negra, você ainda não acredita que na época que o livro foi escrito, ela tinha esse tom de pele. Isso nada muda. Quando estamos falando de adaptações de histórias em diferentes mídias, alterações são extremamente compreensíveis, e se J.K. Rowling e os demais escritores decidiram a partir de agora representar uma personagem como negra, eles têm o total direito de assim o fazer. E isso é fantástico. Em um mundo em que se discute questões como representatividade e racismo, é um ganho enorme para o universo de Harry Potter ter uma atriz negra (e talentosíssima) atuando como uma protagonista da série.

Por fim, acredito que é interessante lembrar a todos que leram os livros e assistiram aos filmes: em momento algum no universo de Harry Potter a aparência física do personagem importou mais ou se quer comparavelmente que suas personalidades. Jamais. Nunca. E J.K. Rowling deixa isso bem claro, pois suas descrições psicológicas ultrapassam em número e grau suas descrições físicas. O que temos de Hermione fisicamente são descrições sobre seu cabelo frisado, dentes grandes, altura e mudança pelo tempo. Psicologicamente, temos incontáveis descrições dos sentimentos, pensamentos e reações da personagem.

Harry Potter and the Cursed Child está em exibição em Londres. A crítica já deu sua opinião: Noma interpreta Hermione de uma forma espetacular. É a mesma bruxa inteligente, ágil e reclamona de sempre. Rose, sua filha, também é negra e pelo que parece, é tão talentosa quanto a mãe. E nos orgulhamos dessa representatividade. E se você, depois de tudo isso, ainda se sente desconfortável ou insatisfeito com a cor da pele de uma personagem de caráter tão marcante, temos uma recomendação:

Leia Harry Potter.